Tiago Barbosa Mafra *
Ao observar a juventude dos dias atuais é claramente perceptível o esvaziamento de sentido de vida dessas pessoas. Falta-lhes objetivo, perspectiva, rumo. Muitos encontram orientação na rua, outros nas drogas, outros na violência, e a grande maioria no consumo exagerado como forma de atenuar a solidão construida pelo individualismo da vida contemporânea. A quebra de paradigmas do pós-modernismo deixou a sociedade com paradigma nenhum. Salve o deus mercado.
Nessa balburdia toda, qual o papel da educação? Como deve se posicionar a escola?
O primeiro passo para avançar na discussão é determinar o que a escola não deve ser. Na obra de Patrice Bonnewitz sobre as idéias de Pierre Bourdieu, apresenta-se a escola como a instituição que reproduz as desigualdades sociais, enquanto sistema de violência simbólica. “A cultura escolar é uma cultura particular, a da classe dominante, transformada em cultura legítima, objetivável e indiscutível”. (BONNEWITZ, 2003: 114)
Este é o primeiro aspecto do qual a escola pode fugir para não se tornar um instrumento de imposição de idéias, conceitos e atitudes dos grupos dominantes.
Outra avaliação corrente nos grupos de professores e na sociedade em geral, é de que a escola necessita de neutralidade, delegando aos estudantes a possibilidade das escolhas. Em relação à isso, é ingenuidade pensar a escola como um espaço neutro. Enquanto pesquisamos sobre algo ou debatemos algum conteúdo, é necessário a clareza de que são conhecimentos produzidos em um contexto, sob influências e valores simbólicos, diferentes dos atuais e que estavam a serviço de ideologias e/ou interesses de cada tempo. “A seleção das disciplinas ensinadas, assim como a escolha dos conteúdos disciplinares é o produto de relações de força entre grupos sociais. A cultura escolar não é uma cultura neutra, mas uma cultura de classe”.(BONNEWITZ, 2003: 115).
Há de se convir também que todos os espaços de vivência da juventude são continuamente fuzilados com propagandas e idéias prontas, as quais a maioria abstrai e torna como sendo sua, reproduzindo o que Eduardo Galeano chamou de Virtude do Papagaio.
Assim, ou a escola é um mero transmissor de conhecimentos, tecnicista e totalmente atrelada à cultura dominante, ou ela pode ser um modo de mostrar ao aluno que ele é sujeito de seu próprio tempo e espaço; definitivamente, neutra a escola não é, e nós, professores, não devemos tomá-la como tal. O educador precisa ter o comprometimento de apresentar ao estudante as mais variadas vertentes sobre os conteúdos, mas sem que isto acarrete na suspensão de suas idéias e valores sobre o tema.
Feitas tais ressalvas, é possível dizer que a escola tem capacidade de funcionar como formadora de pessoas de pensamentos e ações críticas em relação à realidade em que vivem. E acima de tudo, a educação proporcionada pela escola e pelos professores tem que ser uma educação para a liberdade, como propôs o educador Paulo Freire (extremamente reconhecido no mundo, e quase nada no Brasil):
“O caminho, por isto mesmo, para um trabalho de libertação a ser realizado pela liderança revolucionária, não é a “propaganda libertadora”. Não está no mero ato de “depositar” a crença da liberdade nos oprimidos, pensando conquistar a sua confiança, mas no dialogar com eles”. (FREIRE, 2002: 54)
A atividade docente, por mais que haja opiniões divergentes acerca do assunto, é um ato político. Não no sentido partidário, mas no ambito das relações de poder e do entendimento e atuação destas na construção dos espaços de vivência.
Talvez o papel da escola, na conjuntura atual, seja “deseducar”, contruindo o encontro do povo oprimido com a liderança revolucionária, para que na comunhão de ambos, como dizia Freire, a liberdade se faça e refaça sempre.
* Tiago Barbosa Mafra é professor de Geografia na Rede Municipal de Ensino e no curso pré-vestibular comunitário Educafro.
tiago.fidel@yahoo.com.br
terça-feira, 1 de setembro de 2009
segunda-feira, 24 de agosto de 2009
TEXTOS DE ALUNOS
TEMA: Produção Industrial X Preservação Ambiental
Marilia Petreca - Aluna do 8º ano (EE João Eugênio)
Como consumir sem destruir?
O homem vive em um mundo capitalista, completamente consumista, que exclui pessoas apenas por não possuírem o “carro do ano”, a “roupa da moda”. O consumo exagerado aumenta a cada dia, a sede de consumir das pessoas parece não acabar nunca.
Com esse consumismo desenfreado, as fábricas precisam aumentar a produção e a busca das matérias primas para seus produtos. Mas e a natureza, como é que fica em meio a tanta exploração? É impossível que a natureza reponha seus recursos com tanta rapidez, isso leva muito tempo, só que ao mesmo tempo, também é impossível que possamos viver sem consumir, mesmo que moderadamente. Juntando essas duas necessidades, a de que a natureza seja poupada e que mesmo assim continuemos consumindo, é que entra o desenvolvimento sustentável. É claro que não é fácil colocá-lo em prática, pois parece difícil colocar um carro em movimento sem produzir fumaça, é difícil tirar minérios do solo sem deixar buracos, mas é possível pensar em formas de equilibrá-las
---------------------------------------------------
Lucas Gabriel - Aluno do 8º ano (EE João Eugênio)
Não vamos ser Mais um!
A produção Industrial é um problema imenso para o planeta, pois, eles não ligam para o meio ambiente. A Indústria, elimina um bocado de árvores, ganha seu grandioso dinheiro , fica com seu lucro e não se preocupa em plantar novas árvores para reflorestar e ajudar a desaparecer a espécie do planeta . Com essa matéria prima a indústria transformará em bancos , mesas ,brinquedos e etc.
Por isso devemos ter uma grande responsabilidade e assim utilizar e reflorestar para que todos tenham um mundo melhor no futuro ! Também devemos não poluir como, não jogar lixos nos rios e nas ruas , para evitar enchentes .
Existe sempre aquele velho ditado: {se todo mundo faz, por que não devo fazer também?}
Se todos nós cuidarmos do planeta e não poluir e jogar lixo nas ruas , e também no futuro trabalho, utilizando com responsabilidade todos daremos um futuro melhor para nossos filhos, netos e bisnetos.
Vamos todos fazer nossa parte !
-----------------------------------------------------
Thayna Cristina - Aluna do 8º ano (EE João Eugênio)
Fábricas, indústrias e afins... Tudo isso produz, mas será que pensam no ambiente também? Por que será que o ser humano não tem um pouquinho de consciência? Será que ninguém pensa que só produzir, extrair materiais do ambiente, sem preservar, um dia vamos ficar sem?Inúmeras fábricas poluem o ambiente, tanto com gás carbônico, quanto com lixos. Eles não param pra pensar se o ambiente vai ser prejudicado com isso, e os que pensam, são poucos para fazer diferença. O ambiente é tão importante quanto as indústrias de comércio; se nós não vivemos sem comércio, tampouco viveremos sem o meio ambiente. Nenhuma indústria pode produzir sem os recursos naturais. Então como um precisa do outro, os donos das indústrias deveriam arrumar um modo de produzir e preservar! As fábricas deveriam produzir e ao mesmo tempo preservar, não só elas... Mas todos nós.
Marilia Petreca - Aluna do 8º ano (EE João Eugênio)
Como consumir sem destruir?
O homem vive em um mundo capitalista, completamente consumista, que exclui pessoas apenas por não possuírem o “carro do ano”, a “roupa da moda”. O consumo exagerado aumenta a cada dia, a sede de consumir das pessoas parece não acabar nunca.
Com esse consumismo desenfreado, as fábricas precisam aumentar a produção e a busca das matérias primas para seus produtos. Mas e a natureza, como é que fica em meio a tanta exploração? É impossível que a natureza reponha seus recursos com tanta rapidez, isso leva muito tempo, só que ao mesmo tempo, também é impossível que possamos viver sem consumir, mesmo que moderadamente. Juntando essas duas necessidades, a de que a natureza seja poupada e que mesmo assim continuemos consumindo, é que entra o desenvolvimento sustentável. É claro que não é fácil colocá-lo em prática, pois parece difícil colocar um carro em movimento sem produzir fumaça, é difícil tirar minérios do solo sem deixar buracos, mas é possível pensar em formas de equilibrá-las
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Lucas Gabriel - Aluno do 8º ano (EE João Eugênio)
Não vamos ser Mais um!
A produção Industrial é um problema imenso para o planeta, pois, eles não ligam para o meio ambiente. A Indústria, elimina um bocado de árvores, ganha seu grandioso dinheiro , fica com seu lucro e não se preocupa em plantar novas árvores para reflorestar e ajudar a desaparecer a espécie do planeta . Com essa matéria prima a indústria transformará em bancos , mesas ,brinquedos e etc.
Por isso devemos ter uma grande responsabilidade e assim utilizar e reflorestar para que todos tenham um mundo melhor no futuro ! Também devemos não poluir como, não jogar lixos nos rios e nas ruas , para evitar enchentes .
Existe sempre aquele velho ditado: {se todo mundo faz, por que não devo fazer também?}
Se todos nós cuidarmos do planeta e não poluir e jogar lixo nas ruas , e também no futuro trabalho, utilizando com responsabilidade todos daremos um futuro melhor para nossos filhos, netos e bisnetos.
Vamos todos fazer nossa parte !
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Thayna Cristina - Aluna do 8º ano (EE João Eugênio)
Fábricas, indústrias e afins... Tudo isso produz, mas será que pensam no ambiente também? Por que será que o ser humano não tem um pouquinho de consciência? Será que ninguém pensa que só produzir, extrair materiais do ambiente, sem preservar, um dia vamos ficar sem?Inúmeras fábricas poluem o ambiente, tanto com gás carbônico, quanto com lixos. Eles não param pra pensar se o ambiente vai ser prejudicado com isso, e os que pensam, são poucos para fazer diferença. O ambiente é tão importante quanto as indústrias de comércio; se nós não vivemos sem comércio, tampouco viveremos sem o meio ambiente. Nenhuma indústria pode produzir sem os recursos naturais. Então como um precisa do outro, os donos das indústrias deveriam arrumar um modo de produzir e preservar! As fábricas deveriam produzir e ao mesmo tempo preservar, não só elas... Mas todos nós.
terça-feira, 18 de agosto de 2009
MST: A DEFESA DO POVO
Por Marcelo Fernandes Fonseca de Oliveira*
Acompanhamos no noticiário dos últimos dias mais uma ação do maior movimento social do Brasil, o MST. A Jornada Nacional de Lutas do MST mobilizou no último dia 12/08 trabalhadores de 11 estados, pela cobrança da Reforma Agrária e o fortalecimento dos assentamentos já existentes, além de debater com a sociedade, alternativas para a crise econômica mundial.
O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, há mais de vinte anos vem combatendo e batendo de frente as injustiças sociais ocorridas no Brasil principalmente no campo. O histórico de lutas do movimento é enorme, e na maioria vezes a mídia brasileira os apresenta como um “bando” de baderneiros financiados pelo governo.
Na verdade, a luta do MST vai além das questões agrárias. As mobilizações dos trabalhadores é uma forma de pressionar as autoridades brasileiras a aplicarem as leis, uma vez que as leis no Brasil são aplicadas somente a favor dos poderosos. João Pedro Stedile, um dos líderes do movimento disse certa vez: “se reuniões e assembléias dessem resultados em prol dos trabalhadores não seria necessário mobilizações populares”.
No tocante as questões ambientais, a Aracruz Celulose comprou mais de 300 mil hectares de terras no Rio Grande do Sul para plantar eucalipto sem licença ambiental. A monocultura deste gênero é extremamente prejudicial ao meio ambiente, uma vez que necessita de um grande volume de água para seu desenvolvimento. A área de plantio está sobre uma das maiores reservas de água doce do mundo: o Aquífero Guarani.
Como forma de chamar a atenção da opinião pública para este grave problema ambiental, as valentes mulheres do movimento ocuparam o laboratório da Aracruz e destruíram milhares de mudas que, proibidas de serem plantadas na Europa, deixariam no Brasil todo passivo ambiental. A mesma empresa doou 500 mil Reais para a campanha de Yeda Crusius, então governadora do Rio Grande do Sul. Coincidência?
Os laboratórios Monsanto e Syngenta estavam produzindo sementes transgênicas de milho e soja sem licença ambiental, o Ministério Público e o IBAMA foram acionados e não tomaram providências. Este fato só repercutiu na mídia com maior visibilidade graças à ação do MST.
Certa vez o MST ocupou uma praça de pedágio e liberou o tráfego numa rodovia do Paraná, uma das praças mais caras do país. Um Juiz deste mesmo estado declarou: “as empresas de pedágio do Paraná só não tem um lucro maior que o tráfico de cocaína”. Se não houvesse manifestação contra o pedágio certamente poucos saberiam.
Falar sobre as ações do MST, tanto no passado como agora, contra as injustiças sociais que permeiam o debate político nacional, certamente necessitaria de um espaço bem mais amplo de discussões e análises. No entanto, todas as vezes que a grande mídia manipuladora invoca a sigla MST, é para deturpar os motivos das ações. Dizer que o MST “invade” e danifica propriedade privada ou órgão público, certamente, é uma forma de deixar a população pouco esclarecida, contra o movimento.
O MST não recebe verbas de governo e não invade propriedade. O MST “ocupa”, e ocupar é tomar determinado local, público ou privado, com o povo para denunciar. O MST defende o direito do povo de se manifestar e chamar a atenção da opinião pública com o intuito de denunciar injustiças sociais que a mídia, muitas vezes não denuncia.
*Professor de História e Geografia da rede pública estadual de Poços de Caldas – MG. marceloffoliveira@hotmail.com
Acompanhamos no noticiário dos últimos dias mais uma ação do maior movimento social do Brasil, o MST. A Jornada Nacional de Lutas do MST mobilizou no último dia 12/08 trabalhadores de 11 estados, pela cobrança da Reforma Agrária e o fortalecimento dos assentamentos já existentes, além de debater com a sociedade, alternativas para a crise econômica mundial.
O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, há mais de vinte anos vem combatendo e batendo de frente as injustiças sociais ocorridas no Brasil principalmente no campo. O histórico de lutas do movimento é enorme, e na maioria vezes a mídia brasileira os apresenta como um “bando” de baderneiros financiados pelo governo.
Na verdade, a luta do MST vai além das questões agrárias. As mobilizações dos trabalhadores é uma forma de pressionar as autoridades brasileiras a aplicarem as leis, uma vez que as leis no Brasil são aplicadas somente a favor dos poderosos. João Pedro Stedile, um dos líderes do movimento disse certa vez: “se reuniões e assembléias dessem resultados em prol dos trabalhadores não seria necessário mobilizações populares”.
No tocante as questões ambientais, a Aracruz Celulose comprou mais de 300 mil hectares de terras no Rio Grande do Sul para plantar eucalipto sem licença ambiental. A monocultura deste gênero é extremamente prejudicial ao meio ambiente, uma vez que necessita de um grande volume de água para seu desenvolvimento. A área de plantio está sobre uma das maiores reservas de água doce do mundo: o Aquífero Guarani.
Como forma de chamar a atenção da opinião pública para este grave problema ambiental, as valentes mulheres do movimento ocuparam o laboratório da Aracruz e destruíram milhares de mudas que, proibidas de serem plantadas na Europa, deixariam no Brasil todo passivo ambiental. A mesma empresa doou 500 mil Reais para a campanha de Yeda Crusius, então governadora do Rio Grande do Sul. Coincidência?
Os laboratórios Monsanto e Syngenta estavam produzindo sementes transgênicas de milho e soja sem licença ambiental, o Ministério Público e o IBAMA foram acionados e não tomaram providências. Este fato só repercutiu na mídia com maior visibilidade graças à ação do MST.
Certa vez o MST ocupou uma praça de pedágio e liberou o tráfego numa rodovia do Paraná, uma das praças mais caras do país. Um Juiz deste mesmo estado declarou: “as empresas de pedágio do Paraná só não tem um lucro maior que o tráfico de cocaína”. Se não houvesse manifestação contra o pedágio certamente poucos saberiam.
Falar sobre as ações do MST, tanto no passado como agora, contra as injustiças sociais que permeiam o debate político nacional, certamente necessitaria de um espaço bem mais amplo de discussões e análises. No entanto, todas as vezes que a grande mídia manipuladora invoca a sigla MST, é para deturpar os motivos das ações. Dizer que o MST “invade” e danifica propriedade privada ou órgão público, certamente, é uma forma de deixar a população pouco esclarecida, contra o movimento.
O MST não recebe verbas de governo e não invade propriedade. O MST “ocupa”, e ocupar é tomar determinado local, público ou privado, com o povo para denunciar. O MST defende o direito do povo de se manifestar e chamar a atenção da opinião pública com o intuito de denunciar injustiças sociais que a mídia, muitas vezes não denuncia.
*Professor de História e Geografia da rede pública estadual de Poços de Caldas – MG. marceloffoliveira@hotmail.com
quinta-feira, 13 de agosto de 2009
O perigo da utopia
Da Agência Carta Maior por José Luís Fiori
Na segunda metade do Século XX, em particular depois de 1968, tornou-se lugar comum a crítica dos "novos filósofos" europeus, que associavam a utopia socialista ao totalitarismo. Mas não se ouviu o mesmo tipo de reflexão, depois da década de 80, quando a utopia liberal se tornou hegemônica e suas idéias tomaram conta do mundo acadêmico e político. Logo depois da Guerra Fria, Francis Fukuyama popularizou a utopia do "fim da história" e da vitória da "democracia, do mercado e da paz". E apesar dos acontecimentos que seguiram, suas idéias seguem influenciando intelectuais e governantes, sobretudo na periferia do sistema mundial.
Basta ver a confusão causada pelo anúncio recente da decisão norte-americana de ampliar sua presença militar na América do Sul. Com a instalação ou ampliação de sete bases militares no território colombiano, que deverão servir de "ponto de apoio para transporte de cargas e soldados no continente e fora dele".( FSP,5/8/09) O governo norte-americano justificou sua decisão com objetivos "de caráter humanitário e de combate ao narcotráfico". A mesma explicação que foi dada pelo governo americano, por ocasião da reativação da sua IV Frota Naval, na zona da América do Sul, no ano de 2008 : "uma decisão administrativa, tomada com objetivos pacíficos, humanitários e ecológicos" (FSP, 9/0708).
Uma das funções dos diplomatas é participar deste jogo retórico que às vezes soa até um pouco divertido. E cabe aos jornalistas o acompanhamento destes debates sobre distâncias, raio de ação dos aviões, ameaça das drogas, etc. Todavia os intelectuais têm a obrigação de transcender este mundo da retórica e dos números imediatos, e também, o mundo das fantasias utópicas, o que as vezes não acontece, e não se trata - evidentemente - de um problema de ignorância. Pense-se, por exemplo, na utopia liberal do "fim das guerras" que já não fariam mais sentido entre os grandes países, e contraponha-se este tese com a história passada e a história do próprio século XX e XXI.
Segundo a pesquisa e os dados do historiador e sociólogo norte-americano, Charles Tilly: "de 1480 a 1800, a cada dois ou três anos iniciou-se em algum lugar um novo conflito internacional expressivo; de 1800 a 1944, a cada um ou dois anos; a partir da Segunda Guerra Mundial, mais ou menos, a cada quatorze meses. A era nuclear não diminuiu a tendência dos séculos antigos a guerras mais freqüentes e mais mortíferas [ alias] , desde 1900, o mundo assistiu a 237 novas guerras, civis e internacionais.. [enquanto.] o sangrento século XIX contou 205 guerras" (Charles Tilly, Coerção, capital e Estados europeus , Edusp, 1996, p. 123 e 131.) Mesmo na década de 1990, durante os oito anos da administração Clinton, que foi transformado na figura emblemática da vitória da democracia, do mercado e da paz, os EUA mantiveram um ativismo militar muito grande. E ao contrário da impressão generalizada, "os Estados Unidos se envolveram em 48 intervenções militares, muito mais do que em toda a Guerra Fria, período em que ocorreram 16 intervenções militares". (Bacevich, 2002: p:143). E mais recentemente, os "fracassos" militares dos EUA, no Iraque e no Afeganistão - ao contrário do que dizem - aumentaram a presença militar dos EUA na Ásia Central e o cerco da Rússia e da China, envolvendo, portanto, preparação para a guerra entre três grandes potências.
Em tudo isto, fica clara a dificuldade intelectual dos liberais conviverem de forma inteligente, com o fato de que as guerras são uma dimensão essencial e co-constitutiva do sistema mundial em que vivemos, e que portanto não é sensato pensar que desaparecerão. Ao contrário do que pensam os liberais, a associação entre a "geopolítica do equilíbrio de poderes" e as guerras, não se restringe ao século XIX, ( já havia sido identificada na Grécia), e o sonho do "governo mundial" das grandes potências, já existe pelo menos desde o Congresso de Viena, em 1815, sem que isto tenha impedido o aumento do numero dos estados e das guerras nacionais.
Neste tipo de sistema mundial, por outro lado, é muito difícil acreditar na possibilidade do "fim do imperialismo", e ainda menos, neste início do século XXI, em que as grandes potências - velhas e novas - se lançam sobre a África, e sobre a América Latina, disputando palmo a palmo o controle monopólico dos seus mercados e das fontes de energia e matérias primas estratégicas. E soa quase ingênua a crença liberal nos "mercados abertos", num mundo em que todas as grandes potências impedem o acesso às tecnologias de ponta, não aceitam a venda de suas empresas estratégicas, e protegem de forma cada vez mais sofisticada seus produtores industriais e seus mercados agrícolas.
Neste ponto, chama atenção a facilidade com que os economistas liberais confundem os mercados de petróleo, armas e moedas, por exemplo, com os mercados de chuchu, queijos e vinhos. Em tudo isto, o importante é que a utopia liberal também pode ter conseqüências nefastas, sobretudo para os países que não estão situados nos primeiros escalões da hierarquia de poder do sistema mundial. Se as utopias de esquerda levaram - em muitos casos - ao totalitarismo, a utopia liberal e sua permanente negação do papel do poder e da preparação para a guerra, na história do capitalismo e das relações internacionais, leva, com freqüência, os intelectuais e dirigentes destes países mais fracos, à uma posição de servilismo internacional.
José Luís Fiori, cientista político, é professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Na segunda metade do Século XX, em particular depois de 1968, tornou-se lugar comum a crítica dos "novos filósofos" europeus, que associavam a utopia socialista ao totalitarismo. Mas não se ouviu o mesmo tipo de reflexão, depois da década de 80, quando a utopia liberal se tornou hegemônica e suas idéias tomaram conta do mundo acadêmico e político. Logo depois da Guerra Fria, Francis Fukuyama popularizou a utopia do "fim da história" e da vitória da "democracia, do mercado e da paz". E apesar dos acontecimentos que seguiram, suas idéias seguem influenciando intelectuais e governantes, sobretudo na periferia do sistema mundial.
Basta ver a confusão causada pelo anúncio recente da decisão norte-americana de ampliar sua presença militar na América do Sul. Com a instalação ou ampliação de sete bases militares no território colombiano, que deverão servir de "ponto de apoio para transporte de cargas e soldados no continente e fora dele".( FSP,5/8/09) O governo norte-americano justificou sua decisão com objetivos "de caráter humanitário e de combate ao narcotráfico". A mesma explicação que foi dada pelo governo americano, por ocasião da reativação da sua IV Frota Naval, na zona da América do Sul, no ano de 2008 : "uma decisão administrativa, tomada com objetivos pacíficos, humanitários e ecológicos" (FSP, 9/0708).
Uma das funções dos diplomatas é participar deste jogo retórico que às vezes soa até um pouco divertido. E cabe aos jornalistas o acompanhamento destes debates sobre distâncias, raio de ação dos aviões, ameaça das drogas, etc. Todavia os intelectuais têm a obrigação de transcender este mundo da retórica e dos números imediatos, e também, o mundo das fantasias utópicas, o que as vezes não acontece, e não se trata - evidentemente - de um problema de ignorância. Pense-se, por exemplo, na utopia liberal do "fim das guerras" que já não fariam mais sentido entre os grandes países, e contraponha-se este tese com a história passada e a história do próprio século XX e XXI.
Segundo a pesquisa e os dados do historiador e sociólogo norte-americano, Charles Tilly: "de 1480 a 1800, a cada dois ou três anos iniciou-se em algum lugar um novo conflito internacional expressivo; de 1800 a 1944, a cada um ou dois anos; a partir da Segunda Guerra Mundial, mais ou menos, a cada quatorze meses. A era nuclear não diminuiu a tendência dos séculos antigos a guerras mais freqüentes e mais mortíferas [ alias] , desde 1900, o mundo assistiu a 237 novas guerras, civis e internacionais.. [enquanto.] o sangrento século XIX contou 205 guerras" (Charles Tilly, Coerção, capital e Estados europeus , Edusp, 1996, p. 123 e 131.) Mesmo na década de 1990, durante os oito anos da administração Clinton, que foi transformado na figura emblemática da vitória da democracia, do mercado e da paz, os EUA mantiveram um ativismo militar muito grande. E ao contrário da impressão generalizada, "os Estados Unidos se envolveram em 48 intervenções militares, muito mais do que em toda a Guerra Fria, período em que ocorreram 16 intervenções militares". (Bacevich, 2002: p:143). E mais recentemente, os "fracassos" militares dos EUA, no Iraque e no Afeganistão - ao contrário do que dizem - aumentaram a presença militar dos EUA na Ásia Central e o cerco da Rússia e da China, envolvendo, portanto, preparação para a guerra entre três grandes potências.
Em tudo isto, fica clara a dificuldade intelectual dos liberais conviverem de forma inteligente, com o fato de que as guerras são uma dimensão essencial e co-constitutiva do sistema mundial em que vivemos, e que portanto não é sensato pensar que desaparecerão. Ao contrário do que pensam os liberais, a associação entre a "geopolítica do equilíbrio de poderes" e as guerras, não se restringe ao século XIX, ( já havia sido identificada na Grécia), e o sonho do "governo mundial" das grandes potências, já existe pelo menos desde o Congresso de Viena, em 1815, sem que isto tenha impedido o aumento do numero dos estados e das guerras nacionais.
Neste tipo de sistema mundial, por outro lado, é muito difícil acreditar na possibilidade do "fim do imperialismo", e ainda menos, neste início do século XXI, em que as grandes potências - velhas e novas - se lançam sobre a África, e sobre a América Latina, disputando palmo a palmo o controle monopólico dos seus mercados e das fontes de energia e matérias primas estratégicas. E soa quase ingênua a crença liberal nos "mercados abertos", num mundo em que todas as grandes potências impedem o acesso às tecnologias de ponta, não aceitam a venda de suas empresas estratégicas, e protegem de forma cada vez mais sofisticada seus produtores industriais e seus mercados agrícolas.
Neste ponto, chama atenção a facilidade com que os economistas liberais confundem os mercados de petróleo, armas e moedas, por exemplo, com os mercados de chuchu, queijos e vinhos. Em tudo isto, o importante é que a utopia liberal também pode ter conseqüências nefastas, sobretudo para os países que não estão situados nos primeiros escalões da hierarquia de poder do sistema mundial. Se as utopias de esquerda levaram - em muitos casos - ao totalitarismo, a utopia liberal e sua permanente negação do papel do poder e da preparação para a guerra, na história do capitalismo e das relações internacionais, leva, com freqüência, os intelectuais e dirigentes destes países mais fracos, à uma posição de servilismo internacional.
José Luís Fiori, cientista político, é professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
segunda-feira, 3 de agosto de 2009
CAMPO: DOMINAÇÃO, LUTA E VIOLÊNCIA
Por Marcelo Fernandes Fonseca de Oliveira*
Entre os diversos temas que permeiam o debate político, econômico e social do Brasil contemporâneo, e se torna discurso corrente principalmente em anos eleitorais, diz respeito à estrutura fundiária nacional, a reforma agrária e os conflitos sociais no campo. Muito já se disse e fora prometido, no entanto, nada se fez e nada se faz.
Apesar de possuir dimensões continentais, o Brasil está entre os países com pior distribuição de terras do mundo. E a distribuição existente é uma das mais desiguais. Para o Geógrafo Ariovaldo Umbelino de Oliveira, o latifúndio e as lutas sociais no campo, não são exclusividades do nosso tempo. Tem suas raízes no modelo de colonização empregado no Brasil pelo rei de Portugal, e durante o processo histórico, tal modelo justificou a posse das grandes propriedades rurais.
Com o sistema de Capitanias Hereditárias, os capitães donatários recebiam uma doação da Coroa portuguesa pela qual se tornavam possuidores e não proprietários de vastas extensões de terras. No entanto, a posse dava aos donatários poderes e direitos sobre o território, dentre eles a doação de sesmarias. Para o Historiador Boris Fausto, reside aí a origem do latifúndio e da concentração de terras no Brasil.
A posse da terra era sinônimo de prestígio, uma afirmação aristocrática. Os primeiros prejudicados e os primeiros a lutarem, foram os indígenas, que viram suas terras serem tomadas e seus costumes dilacerados. Lutaram, mas a luta foi desigual. Nos tempos da escravidão, os negros lutaram contra os grandes fazendeiros pela sua liberdade; luta desigual. Canudos e Contestado, camponeses se revoltaram. Para manter a “ordem” o Estado, coercitivo, reagiu com violência.
As lutas no campo ganham dimensão nacional nas décadas de 1950 – 60, com a formação das Ligas Camponesas e a criação da ULTAB (União dos Lavradores e Trabalhadores Agrícolas do Brasil). No entanto, com a tomada do poder pelos militares em 1964, os líderes foram perseguidos e assassinados.
Política e interesses agrários se misturam. Leis e acordos justificam atitudes. Entre outras, a Lei de Terras (1850): consolidou o latifúndio, o Convênio de Taubaté (1906): privilegiou os cafeicultores, o Estatuto da Terra (1964): jamais aplicado. E a violência? Não só física, mas simbólica: Corumbiara, Eldorado dos Carajás, Pontal do Paranapanema, Chico Mendes, irmã Dorothy Stang e tantos outros...
O que mudou? Nada. Encontramos facilmente pelos rincões deste país inúmeros latifúndios monocultores controlados por grandes grupos capitalistas e por aqueles que controlam. A “bancada ruralista” congrega mais de cem representantes entre deputados e senadores, e constitui o maior grupo de interesses do Congresso Nacional, frutos da UDR.
E ficam as famosas perguntas que nunca se calam: Será que estes nobres deputados e senadores estão dispostos a fazerem a reforma agrária, tão essencial para o desenvolvimento de nosso país? Repartiriam eles as suas terras e as de seus capachos? Votariam leis contra seus interesses? Eu, modestamente, duvido muito. Reformas sociais, tanto no campo como na cidade, estão atreladas a reforma política e na política.
*Professor de História e Geografia da rede pública estadual de Poços de Caldas – MG. marceloffoliveira@hotmail.com
Entre os diversos temas que permeiam o debate político, econômico e social do Brasil contemporâneo, e se torna discurso corrente principalmente em anos eleitorais, diz respeito à estrutura fundiária nacional, a reforma agrária e os conflitos sociais no campo. Muito já se disse e fora prometido, no entanto, nada se fez e nada se faz.
Apesar de possuir dimensões continentais, o Brasil está entre os países com pior distribuição de terras do mundo. E a distribuição existente é uma das mais desiguais. Para o Geógrafo Ariovaldo Umbelino de Oliveira, o latifúndio e as lutas sociais no campo, não são exclusividades do nosso tempo. Tem suas raízes no modelo de colonização empregado no Brasil pelo rei de Portugal, e durante o processo histórico, tal modelo justificou a posse das grandes propriedades rurais.
Com o sistema de Capitanias Hereditárias, os capitães donatários recebiam uma doação da Coroa portuguesa pela qual se tornavam possuidores e não proprietários de vastas extensões de terras. No entanto, a posse dava aos donatários poderes e direitos sobre o território, dentre eles a doação de sesmarias. Para o Historiador Boris Fausto, reside aí a origem do latifúndio e da concentração de terras no Brasil.
A posse da terra era sinônimo de prestígio, uma afirmação aristocrática. Os primeiros prejudicados e os primeiros a lutarem, foram os indígenas, que viram suas terras serem tomadas e seus costumes dilacerados. Lutaram, mas a luta foi desigual. Nos tempos da escravidão, os negros lutaram contra os grandes fazendeiros pela sua liberdade; luta desigual. Canudos e Contestado, camponeses se revoltaram. Para manter a “ordem” o Estado, coercitivo, reagiu com violência.
As lutas no campo ganham dimensão nacional nas décadas de 1950 – 60, com a formação das Ligas Camponesas e a criação da ULTAB (União dos Lavradores e Trabalhadores Agrícolas do Brasil). No entanto, com a tomada do poder pelos militares em 1964, os líderes foram perseguidos e assassinados.
Política e interesses agrários se misturam. Leis e acordos justificam atitudes. Entre outras, a Lei de Terras (1850): consolidou o latifúndio, o Convênio de Taubaté (1906): privilegiou os cafeicultores, o Estatuto da Terra (1964): jamais aplicado. E a violência? Não só física, mas simbólica: Corumbiara, Eldorado dos Carajás, Pontal do Paranapanema, Chico Mendes, irmã Dorothy Stang e tantos outros...
O que mudou? Nada. Encontramos facilmente pelos rincões deste país inúmeros latifúndios monocultores controlados por grandes grupos capitalistas e por aqueles que controlam. A “bancada ruralista” congrega mais de cem representantes entre deputados e senadores, e constitui o maior grupo de interesses do Congresso Nacional, frutos da UDR.
E ficam as famosas perguntas que nunca se calam: Será que estes nobres deputados e senadores estão dispostos a fazerem a reforma agrária, tão essencial para o desenvolvimento de nosso país? Repartiriam eles as suas terras e as de seus capachos? Votariam leis contra seus interesses? Eu, modestamente, duvido muito. Reformas sociais, tanto no campo como na cidade, estão atreladas a reforma política e na política.
*Professor de História e Geografia da rede pública estadual de Poços de Caldas – MG. marceloffoliveira@hotmail.com
sábado, 25 de julho de 2009
A falta que faz ao Papa um pouco de marxismo
Leonardo Boff *
A nova encíclica de Bento XVI Caritas in Veritate de 7 de julho último é uma tomada de posição da Igreja face à crise atual. O complexo das crises, que atingem a humanidade e que comportam ameaças severas sobre o sistema da vida e seu futuro, demandaria um texto profético, carregado de urgência. Mas não é isso que recebemos senão uma longa e detalhada reflexão sobre a maioria dos problemas atuais que vão da crise econômica ao turismo, da biotecnologia à crise ambiental e projeções sobre um Governo mundial da Globalização. O gênero não é profético, o que suporia "uma análise concreta de uma situação concreta". Esta possibilitaria investir contra os problemas em tela na forma de denúncia-anúncio. Mas não é da natureza deste Papa ser profeta. Ele é um doutor e um mestre. Elabora o discurso oficial do Magistério, cuja perspectiva não é de baixo, da vida real e conflitiva, mas de cima, da doutrina ortodoxa que esfuma as contradições e minimaliza os conflitos. A tônica dominante não é a da análise, mas da ética, do dever-ser.
Como não faz análise da realidade atual, extremamente complexa, o discurso magisterial permanece principista, equilibrista e se define por sua indefinição. O subtexto do texto, ou o não-dito no dito, remete a uma inocência teórica que inconscientemente assume a ideologia funcional da sociedade dominante. Já se nota na abordagem do tema central - o desenvolvimento - hoje tão criticado por não tomar em conta os limites ecológicos da Terra. Disso a encíclica não fala nada. A visão é de que o sistema mundial se apresenta fundamentalmente correto. O que existe são disfunções e não contradições. Esse diagnóstico sugere a seguinte terapia, semelhante a do G-20: retificações e não mudanças, melhorias e não troca de paradigma, reformas e não libertações. É o imperativo do mestre: "correção", não a do profeta:"conversão".
Ao lermos o texto, longo e pesado, terminamos por pensar: como faria bem ao atual Papa um pouco de marxismo! Este, a partir dos oprimidos, tem o mérito de desmascarar as oposições presentes no sistema atual, pôr à luz os conflitos de poder e denunciar a voracidade incontida da sociedade de mercado, competitiva, consumista, nada cooperativa e injusta. Ela representa um pecado social e estrutural que sacrifica milhões no altar da produção para o consumo ilimitado. Isso caberia ao Papa profeticamente denunciar. Mas não o faz.
O texto do Magistério, olimpicamente fora e acima da situação conflitiva atual, não é ideologicamente "neutro"como pretende. É um discurso reprodutor do sistema imperante que faz sofrer a todos especialmente os pobres. Isso não é questão de Bento XVI querer ou não querer mas da lógica estrutural de seu tipo de discurso magisterial. Por renunciar a uma análise critica séria, paga um preço alto em ineficácia teórica e prática. Não inova, repete.
E ai perde uma enorme oportunidade de se dirigir à humanidade num momento dramático da história, a partir do capital simbólico de transformação e de esperança, contido na mensagem cristã. Esse Papa não valoriza o novo céu e a nova Terra, que podem ser antecipados pelas práticas humanas, apenas conhece essa vida decadente e, por si mesma insustentável (seu pessimismo cultural) e a vida eterna e o céu que ainda virão. Afasta-se assim da grande mensagem bíblica que possui consequências políticas revolucionárias ao afirmar que a utopia terminal do Reino da justiça, do amor e da liberdade só será real na medida em que se construírem e anteciparem, nos limites do espaço e do tempo histórico, tais bens entre nós.
Curiosamente, abstraindo de laivos fideístas recorrentes ("só através da caridade cristã é possível o desenvolvimento integral"), quando se "esquece" do tom magisterial, na parte final da encíclica, introduz coisas sensatas como a reforma da ONU, a nova arquitetura econômico-financeira internacional, o conceito do Bem Comum do Globo e a inclusão relacional da família humana.Parafraseando Nietzsche: "quanto de análise crítica o Magistério da Igreja é capaz de incorporar"?
* Teólogo, filósofo e escritor
A nova encíclica de Bento XVI Caritas in Veritate de 7 de julho último é uma tomada de posição da Igreja face à crise atual. O complexo das crises, que atingem a humanidade e que comportam ameaças severas sobre o sistema da vida e seu futuro, demandaria um texto profético, carregado de urgência. Mas não é isso que recebemos senão uma longa e detalhada reflexão sobre a maioria dos problemas atuais que vão da crise econômica ao turismo, da biotecnologia à crise ambiental e projeções sobre um Governo mundial da Globalização. O gênero não é profético, o que suporia "uma análise concreta de uma situação concreta". Esta possibilitaria investir contra os problemas em tela na forma de denúncia-anúncio. Mas não é da natureza deste Papa ser profeta. Ele é um doutor e um mestre. Elabora o discurso oficial do Magistério, cuja perspectiva não é de baixo, da vida real e conflitiva, mas de cima, da doutrina ortodoxa que esfuma as contradições e minimaliza os conflitos. A tônica dominante não é a da análise, mas da ética, do dever-ser.
Como não faz análise da realidade atual, extremamente complexa, o discurso magisterial permanece principista, equilibrista e se define por sua indefinição. O subtexto do texto, ou o não-dito no dito, remete a uma inocência teórica que inconscientemente assume a ideologia funcional da sociedade dominante. Já se nota na abordagem do tema central - o desenvolvimento - hoje tão criticado por não tomar em conta os limites ecológicos da Terra. Disso a encíclica não fala nada. A visão é de que o sistema mundial se apresenta fundamentalmente correto. O que existe são disfunções e não contradições. Esse diagnóstico sugere a seguinte terapia, semelhante a do G-20: retificações e não mudanças, melhorias e não troca de paradigma, reformas e não libertações. É o imperativo do mestre: "correção", não a do profeta:"conversão".
Ao lermos o texto, longo e pesado, terminamos por pensar: como faria bem ao atual Papa um pouco de marxismo! Este, a partir dos oprimidos, tem o mérito de desmascarar as oposições presentes no sistema atual, pôr à luz os conflitos de poder e denunciar a voracidade incontida da sociedade de mercado, competitiva, consumista, nada cooperativa e injusta. Ela representa um pecado social e estrutural que sacrifica milhões no altar da produção para o consumo ilimitado. Isso caberia ao Papa profeticamente denunciar. Mas não o faz.
O texto do Magistério, olimpicamente fora e acima da situação conflitiva atual, não é ideologicamente "neutro"como pretende. É um discurso reprodutor do sistema imperante que faz sofrer a todos especialmente os pobres. Isso não é questão de Bento XVI querer ou não querer mas da lógica estrutural de seu tipo de discurso magisterial. Por renunciar a uma análise critica séria, paga um preço alto em ineficácia teórica e prática. Não inova, repete.
E ai perde uma enorme oportunidade de se dirigir à humanidade num momento dramático da história, a partir do capital simbólico de transformação e de esperança, contido na mensagem cristã. Esse Papa não valoriza o novo céu e a nova Terra, que podem ser antecipados pelas práticas humanas, apenas conhece essa vida decadente e, por si mesma insustentável (seu pessimismo cultural) e a vida eterna e o céu que ainda virão. Afasta-se assim da grande mensagem bíblica que possui consequências políticas revolucionárias ao afirmar que a utopia terminal do Reino da justiça, do amor e da liberdade só será real na medida em que se construírem e anteciparem, nos limites do espaço e do tempo histórico, tais bens entre nós.
Curiosamente, abstraindo de laivos fideístas recorrentes ("só através da caridade cristã é possível o desenvolvimento integral"), quando se "esquece" do tom magisterial, na parte final da encíclica, introduz coisas sensatas como a reforma da ONU, a nova arquitetura econômico-financeira internacional, o conceito do Bem Comum do Globo e a inclusão relacional da família humana.Parafraseando Nietzsche: "quanto de análise crítica o Magistério da Igreja é capaz de incorporar"?
* Teólogo, filósofo e escritor
quinta-feira, 23 de julho de 2009
Os resquícios de um inferno
Por Tiago Barbosa Mafra *
Em 20 de Julho de 1944 o Coronel Conde Claus von Stauffenberg, oficial do exército alemão em guerra, malogrou na mais famosa entre tantas tentativas de assassinato a Hitler. Era o sinal de que nem todo o povo alemão estava de acordo com as atrocidades colocadas em prática antes e durante o conflito. Pouco menos de um ano depois estava acabada a guerra na Europa e Hitler suicidou-se. Mas morreu com ele o nazismo?
Infelizmente é perceptível que não. Com a fuga dos políticos e militares sobreviventes, ou mesmo através de obras escritas propagadas indevida e ilegalmente pelo mundo, tem-se uma continuidade das idéias racistas, discriminatórias e intolerantes em relação a tudo considerado diferente do padrão “branco alemão”, o ariano puro.
Até mesmo no Brasil, no meios de comunicação virtual atuais, milhares e milhares de portais virtuais e blogs difundem idéias que se esperava estivessem esquecidas. E pasmem leitores: aqui mesmo em nossa cidade, Poços de Caldas, vivenciei está semana a facilidade com que esses verdadeiros crimes se mantem em andamento.
Ao buscar algumas obras de interesses para minhas pesquisas, me deparei com dois exemplars do livro Holocausto: judeu ou alemão?, de Siegfried Ellwager Castan, conhecido e repudiado no meio acadêmico como S. E. Castan. Desde 1986, Castan é denunciado pelos Movimentos Populares Anti-Racismo do Rio Grande do Sul, sendo que em 1991 o Ministério Público determinou a busca e apreensão de todos os títulos publicados pela Editora Revisão (da qual Castan é proprietário), incluindo o livro acima citado.
O que não consigo compreender é como essas obras ilegais e revisionistas, de cunho nazista, continuam à disposição da população e principalmente e mais preocupante, ao alcance da juventude, em uma das maiores bibliotecas do município, a Biblioteca Centenário, locada no prédio da Urca.
Encaminhei um pedido de retirada dos livros para a administração das bibliotecas e creio que as devidas medidas estejam sendo tomadas. O que mais assusta, como cidadão e educador, é saber que em tempos de crises e dificuldades, propostas de soluções rápidas e eficazes sempre fascinam a juventude. E o que nós menos precisamos agora é dotar o povo, já massificado pelos meios de comunicação e obrigados a pensar mais rápido e não a pensar melhor, com posicionamentos intolerantes, de aversão a tudo que não é considerado superior.
Todo cuidado é pouco. O chefe da propaganda nazista dizia: “uma mentira repetida mil vezes se torna verdade”. Foi assim que eles procederam. E é contra essas mentiras que devemos lutar.
* Tiago Barbosa Mafra é professor de Geografia na Rede Municipal de Ensino e no curso pré-vestibular comunitário Educafro.
tiago.fidel@yahoo.com.br
Em 20 de Julho de 1944 o Coronel Conde Claus von Stauffenberg, oficial do exército alemão em guerra, malogrou na mais famosa entre tantas tentativas de assassinato a Hitler. Era o sinal de que nem todo o povo alemão estava de acordo com as atrocidades colocadas em prática antes e durante o conflito. Pouco menos de um ano depois estava acabada a guerra na Europa e Hitler suicidou-se. Mas morreu com ele o nazismo?
Infelizmente é perceptível que não. Com a fuga dos políticos e militares sobreviventes, ou mesmo através de obras escritas propagadas indevida e ilegalmente pelo mundo, tem-se uma continuidade das idéias racistas, discriminatórias e intolerantes em relação a tudo considerado diferente do padrão “branco alemão”, o ariano puro.
Até mesmo no Brasil, no meios de comunicação virtual atuais, milhares e milhares de portais virtuais e blogs difundem idéias que se esperava estivessem esquecidas. E pasmem leitores: aqui mesmo em nossa cidade, Poços de Caldas, vivenciei está semana a facilidade com que esses verdadeiros crimes se mantem em andamento.
Ao buscar algumas obras de interesses para minhas pesquisas, me deparei com dois exemplars do livro Holocausto: judeu ou alemão?, de Siegfried Ellwager Castan, conhecido e repudiado no meio acadêmico como S. E. Castan. Desde 1986, Castan é denunciado pelos Movimentos Populares Anti-Racismo do Rio Grande do Sul, sendo que em 1991 o Ministério Público determinou a busca e apreensão de todos os títulos publicados pela Editora Revisão (da qual Castan é proprietário), incluindo o livro acima citado.
O que não consigo compreender é como essas obras ilegais e revisionistas, de cunho nazista, continuam à disposição da população e principalmente e mais preocupante, ao alcance da juventude, em uma das maiores bibliotecas do município, a Biblioteca Centenário, locada no prédio da Urca.
Encaminhei um pedido de retirada dos livros para a administração das bibliotecas e creio que as devidas medidas estejam sendo tomadas. O que mais assusta, como cidadão e educador, é saber que em tempos de crises e dificuldades, propostas de soluções rápidas e eficazes sempre fascinam a juventude. E o que nós menos precisamos agora é dotar o povo, já massificado pelos meios de comunicação e obrigados a pensar mais rápido e não a pensar melhor, com posicionamentos intolerantes, de aversão a tudo que não é considerado superior.
Todo cuidado é pouco. O chefe da propaganda nazista dizia: “uma mentira repetida mil vezes se torna verdade”. Foi assim que eles procederam. E é contra essas mentiras que devemos lutar.
* Tiago Barbosa Mafra é professor de Geografia na Rede Municipal de Ensino e no curso pré-vestibular comunitário Educafro.
tiago.fidel@yahoo.com.br
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